quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Que paz

Passeio os olhos mortiços ao longo do mar salgado onde bóiam cadáveres fantasmas na espuma das ondas negras e duas gaivotas bicam,famintas,o espelho sanguinário da minha batalha
revolvendo estilhaços inertes ancorados as rochas.
Passo indiferente á névoa claustrofóbica que vigia o horizonte onde se adivinham anjos negros entoando elegias,rindo da naufraga bandeira branca amordaçada nos corais cristalinos das águas turvas.
Cega,passo a pé,sem pressa,pelos túmulos remexidos,
pelo cemitério das velhas embarcações que emergem,
imponentes,
dos grãos da areia escarlate,
como livros que contam lendas de heróis e conquistadores e,
lanço ao halo do meu tornado interno,perguntas trágicas,
indiferente ás balas que acariciam o corpo profanado da minha guerreira adormecida.
Aqui,no entanto,o vento cruel,rejeita pontos de interrogação,
qualquer resposta,
qualquer som brusco que irrompa fatalmente o sepulcral silencio da paz.
Enclausurada,vejo estender-se a meus pés a calmaria aparente e prossigo,
despojada de espírito,
sem destino,
sem uma única vaga de liberdade que me permita enfim,soltar o grito de socorro que agoniza algemado a rouquidão terminal das minhas cordas vocais contorcidas e mudas.
Paz...
QUE PAZ

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


Life is a tragedy for those who feel, and a comedy for those who think.

La Bruyere

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010



É na névoa do inverno,
quando a chuva alaga as estradas do mundo deserto
que a tua ausência mais me dói
reavivando impiedosamente a ferida sufocante de quando não estás,
essa ferida que adormece e acorda
sempre que chegas e partes,
que não sara nem cura e abandona,
nas mãos da mais tirana saudade,
a visão delícia dos corpos exaustos que ainda ontem,
a esta hora,
se incendiaram e extinguiram.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Oiço passos ao anoitecer,
sinto o corpo estremecer
no calor da escuridão.
Estão fantasias despertas,
as minhas chagas abertas
no negro colo da solidão.

E estes versos que escrevo
são destas quimeras perdidas
as tormentas esquecidas
do amor que não vem,
por medos incertos,
em poemas dispersos,
que há muito não lê ninguém.

Não sei por quem sinto então este ciúme,
por quem o queixume
que pulsa em cada veia,
se nos braços do amanhecer,
sinto a chama desvanecer
na paixão que não se ateia.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Tudo é foi

Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia,
outros lábios o respiram,
outros 'aléns ' se tingiram
de outro sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram,
outro vento as despenteia,
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento,tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença,espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.


António Gedeão - in Poesias Completas

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Reflexões




Não há maior dor do que a que habita em segredo todo o espaço da alma,
toda a área do coração e que ocupa a casa dos pensamentos
e os terrenos pantanosos da vida.
Não há então maior ferida que esta multidão agitada e inquisidora que não se revela nem manifesta mais por deliberada ignorância e condescendência do egoísmo humano
do que por vergonha de quem nela encontra o derradeiro sinónimo da palavra tristeza.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Demorei-me nas tuas mãos medonhas e,
gigantes,
cravei as tuas unhas meticulosamente afiadas
no tenro naco da minha carne.
O tímido demónio que te suga
doravante aparará a queda dos meus seios
no sinistro chicotear que me chama
ao corredor bruto do teu punho cerrado
como um anjo desnudado que se suicida
numa pira de repulsa infernal á teimosia
da minha castidade ímpar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Fome

Nunca extinguiste a minha fome.
Nem as minhas insónias.
Antes as alimentaste.
As minhas insónias
que a fome nunca extinguiste.

Presumo que ignores o burburinho do meu vazio.
Nada são os gomos que me dás,
a mísera esmola que me deixas sempre que vens,
nunca quando te espero.

Sento-me á mesa muitas vezes
e converso com os pratos vazios,
bebendo vinho branco
sem receio da esquizofrenia á hora das refeições
como se a fuga deliberada de um apetite mutilado
me equilibrasse quando me remexo
na gravidade inerte da nossa casa solitária.

Que é do fruto sagrado que me prometeste inutilmente´um dia...
Para onde migraram as palavras doces com laivos de poesia...
Sabias me faminta e,
sem pingo de misericórdia,
enganaste o meu paladar.
Mas eu nunca te pedi nada do tanto que queria
senão que não me abandonasses nos campos inférteis,
nas planícies mal lavradas.

Nunca extinguiste a minha fome,
a única condição que te impus humildemente
e,
toda a sede de te adorar esgotou-se.
Como um campo em pousio que ás mãos do lavrador
não lembrou jamais.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010


Partimos lado a lado percorrendo corredores nos vagões desgovernados das emoções,
flutuando em marés viciadas,em faustosos jardins de espinhos.
Nos ramos desnudados,um ninho alheio determinava o pulsar fantasma dos desejos
e os suspiros contidos no cofre dos segredos maiores por se ter entregue a morte
as nossas vidas.
Sem leis,
de olhos pregados ao caixão dos propósitos impostos,
fomos cumprindo todas elas,exibindo um orgulho estupidamente vital.
Tropeçámos na esperança e trocámos uma mão de ajuda na nossa queda medíocre
brindada com aplausos diabólicos na orquestra irónica das mãos da inveja e do mal,
desertas e indiferentes.
Qualquer gesto discreto na montanha russa dos nossos passos nos teria ensinado a sorrir,
a sentir de outra forma mais sábia o que não queríamos por querer tanto,
esta dádiva que nos foi vedada sem culpa ou desculpa em todos os apeadeiros,
em todos os colos e confessionários...
Sem afastamento porém,
lançando moedas da sorte esquecidas nos bolsos,
desejando de uma forma tão própria o cruzamento idílico do impossível.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Nem simples nem complicado

Confundem-me quando dizem que determinada coisa é simples...
O mesmo sucede quando afirmam que determinada coisa é complicada.
Confundem-me simplesmente.
Nada é simples nem deixa de ser,logo, não creio que existam complicações mais ou menos complexas.
É como tentar resolver com uma equação um problema matemático que exige apenas uma conta de somar ou vice-versa.
Multiplicar-se-á problemas pelo tempo dispendido sem no entanto chegarmos a um resultado realmente válido.
Ou encaramos as coisas com objectividade e pomos de parte os superlativos,seguramente relativos do mais ou menos simples,ou escapar-nos-ao pequenos detalhes da maior importância e claro,do mais ou menos complicado ou surgirão inúteis e desnecessários pontos de interrogação onde já existe um a que será,indubitavelmente, mais urgente responder.

Pensem nisso...

Patrícia

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Viagem

Existem dias que não são dias.
Nem dias nem noites.
São bocado soltos de tempo em que não estou acordada nem a dormir,
em que existo minuto a minuto,
crua como uma folha de papel em branco.
Estou e não sou.
Apenas dentro do castanho dos meus olhos,
da coberta pálida da minha pele,
dos meus escravos caracóis negros
se pode sentir a dormência da minha essência retorcida
como um eremita bicho-de-conta
que não é da conta de ninguém.

Escolho,sem escolher efectivamente, a solidão
ou seja lá o que for esta vontade de estar em mim sem mim,
de costas voltadas para o que a vida desvenda e encerra
com um sentido de oportunidade notável.
Tal e qual o guarda-chuva que se esquece em dias de meteorológicas tormentas
e o que se traz teimosamente
quando as nuvens não se desfazem em rudes dilúvios lacrimais.

Existem estas invasões súbitas,
sem pedido de licença.
Ques com porquês,
porquês com para ques...
O que
Não estou.
Não sou.
Não hoje.

Já que chegaram sorrateiras,
as visitas indesejadas que se acomodem ou desacomodem.
Não estou longe nem perto de tudo e de ninguém
e demoro quase sempre muito nestas breves reticencias longas,
diz-se...
Mas há dias em que finjo morrer
para que se de enfim,
pela minha existência passiva.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Posso viver bem do sucesso e dinheiro alheio mas só consigo viver feliz vivendo com o dinheiro do meu sucesso.

Path

Esboços

Pinto pequenos esboços numa tela nua,
num quadro em branco,
desenho na azáfama da rua
a redoma inquebrável
em que me tranco.

Das mãos sempre vazias
o pincel preenche um mundo,
improvisa emoção,
um punhado de utopia
onde afundo
bem no fundo,
os destroços da frustração.

Deste quadro,sei,
não rezará a história,
nem da minha historia se dirá primavera,
se a ansiedade impera no despontar de cada cor,
no desabrochar de cada flor
e a tinta esbate sobre um portão fechado,
duas asas inúteis de um espírito esventrado
por pequenos nadas ditos fúteis.

E o labirinto da minha alma
reflecte se num imenso rabisco
no quadro dos meus lamentos,
na espiral sem alimento,
de onde me alimento e subsisto.